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terça-feira, 7 de setembro de 2010

A finta

Propus aqui, antes das férias, que juntemos esforços no sentido de promover um encontro da esquerda desalinhada. Ou seja, da esquerda sem dono nem compromissos de grupo.

Pelo meio, empolgado na entrega e generosidade que se lhe reconhecem, um companheiro de Matosinhos, aderente do Bloco de Esquerda, veio sugerir concerto de posições entre os que haviam participado na Assembleia de Activistas Por uma Candidatura de Esquerda – realizada em Lisboa, em 10 de Julho – e um grupo de subscritores bloquistas de um abaixo-assinado/apelo a uma candidatura.

Entretanto, o tempo foi passando e essa “urgência” dos subscritores - que dois meses antes haviam declarado expressamente não haver condições para uma candidatura de esquerda – revelou-se um mero descargo de consciência.
É por demais evidente que, grosso modo, os referidos subscritores não têm nenhum interesse e nunca manifestaram empenhamento sério numa candidatura que levasse o protesto social às Presidenciais 2011. Pelo que, pela parte que me toca, reconheço não haver condições objectivas para a afirmação de uma tal candidatura, conquanto as condições subjectivas indicassem essa possibilidade e essa necessidade.

Num historial de hesitações e/ou fintas dilatórias, seria impossível construir coisa nova em terra velha…
A esquerda portuguesa é uma merda – a velha e a “nova”… E a verborreia panfletária já não consegue ocultar a sua impossibilidade história em construir coisa que se veja e seja útil ao movimento social.

Como dizia hoje um amigo, em e-mail que remeteu a propósito da putativa candidatura: “Os portugueses à solta, quando se organizam, estruturam espontaneamente uma de três coisas e essas são: um bordel, um asilo, ou uma inquisição. Podem chamar-lhe o que quiserem, mas é sempre isso que sai tendencialmente. É preciso ter paciência. Porque a alternativa é proibir os portugueses de organizarem o que quer que seja e isso, evidentemente, contraria a liberdade de associação.”

A ironia aplica-se com acuidade ao folhetim deste processo. Entre o entrismo e os golpes palacianos, aquilo que resta da velha esquerda fossilizada não tem inteligência nem fulgor para revelar uma ideia nova que seja, um empenhamento sério que não decorra do espírito de seita, um gesto que a distinga dos velhos métodos e das tristes receitas.

Para esse peditório já dei. A construção de uma nova esquerda passa pela ruptura com as lógicas grupusculares, as poses esquerdofrénicas e os discursos inflamados de quem, ao fim de tanto caminho feito, não percebeu nada do que é essencial, eficaz e útil.

Estou em crer que a necessidade do encontro a que fiz referência no início, se manifesta ainda com mais premência. E que para um tal objectivo, sejamos claros, a esquerda da situação não conta.

Romper com o regime e as “comissões de melhoramentos” que, denodadamente, lhe têm vindo a passar a mão pelo pêlo, parece-me ser o único caminho que reconstrua a esperança de uma alternativa e revolucione os caminhos da intervenção política.

Se alguém se rever nestas ideias, parece-me haver condições para que a esquerda desalinhada se possa encontrar e reconhecer.

António Alte Pinho

Resposta de um bloquista à direcção do B.E.

A direcção política do B.E.
respondeu(!) aos bloquistas
Por uma Convenção Extraordinária...

A direcção política do Bloco de Esquerda não é homogénea na sua composição. É um somatório das correntes que representaram a "troika" fundadora do Bloco. É claro que, em dez anos, essas correntes foram-se modificando. Todas elas deixaram de se assumir como "correntes", embora "Associações", sendo notória a crescente influência da "corrente" proveniente da "UDP". Porque é assim, compreende-se melhor a peça que essa direcção política resolveu enviar, por mail, logo sem assinatura(s) visível(eis), a todos os signatários da petição por uma Convenção Extraordinária. Embora nunca o assumindo, quem sempre teve de cumprir com o "centralismo democrático", acaba por revelar essa influência nos momentos mais delicados.

Os meus camaradas da direcção política do Bloco, em especial os que gostam de dominar o "aparelho", como o José ensinou, têm muita dificuldade em saber o significado do Bloco como "partido-movimento" ... o BE não é um partido, no seu sentido tradicional do termo. É um movimento onde deveriam convergir correntes, grupos e movimentos sociais, numa pluralidade ditada pela intervenção nas lutas sociais, com ambição de se afirmar como alternativa socialista de poder! Parece que agora, o movimento foi-se, e fica, cada vez mais, o partido tradicional segundo os canones lenino-estalinistas ...

As eleições presidenciais têm tido essa virtude: põem a claro as intenções muito pouco democráticas da direcção do Bloco, e a falta de calma e serenidade que têm com quem exprime posições diferentes.

É injusto tomar a direcção do Bloco, toda por igual. Há diferenças no seu seio. Há, sim senhor! Há os que estão mortinhos por ver a divergência excluída, há os que mentem com todos os dentes que têm, mas também há os que ainda têm alguma paciência para o debate.

Infelizmente, a peça produzida pela direcção política, i.e., o secretariado do BE, parece ter um dedo mais forte dos que estão mortinhos por ver a divergência excluída ...

Pessoalmente não conheço nenhum bloquista que tenha pedido a Convenção Nacional Extraordinária, que compare Alegre a Cavaco Silva. Conheço, entre esses bloquistas, quem apoie Fernando Nobre, quem apoie Alegre, quem se prepare para votar em branco ou não votar ... mas comparar Alegre a Cavaco, não conheço! Mas, lá do alto, logo com uma visão mais abrangente, é possível que a direcção política tenha descoberto alguém!!!!

Quando há Convenções, só podem votar para a eleição dos delegados, quem tiver as quotas pagas. Mas para a petição, o secretariado conta 10% entre quem paga, quem não paga e até quem ainda está inscrito, embora já tenha efectivamente saído do Bloco. Mais uma vez, a direcção do Bloco, como direcção que é, tem o privilégio ter a única verdade na interpretação dessas coisas estatutárias ...

O secretariado do Bloco nunca esteve verdadeiramente interessado em discutir democráticamente as presidenciais. Desde a última Convenção que já tinha decidido tudo o que faria, daí para a frente ... compreende-se assim a declaração solitária e unipessoal do camarada Francisco Louçã num belo dia 19 de Dezembro de 2009 à TVI, comprometendo todo o BE com o apoio a Manuel Alegre!

Tudo o resto foi/é encenação ...

Por último, a minha posição sobre as presidenciais de 2011: aborrece-me ver o meu Bloco de Esquerda ao lado do partido de Sócrates no apoio ao mesmo candidato presidencial, Manuel Alegre. Eu até votei Alegre quando muitos da direcção do Bloco, diziam cobras e lagartos do candidato ... agora apoiam um Alegre convertido no que Soares era nas últimas eleições presidenciais! Não votarei Fernando Nobre, nem votarei Francisco Lopes ... gostaria que tivesse surgido uma candidatura das esquerdas, socialista e anti-capitalista! Resta-me tudo fazer, perante a miséria do cenário que temos, para derrotar a candidatura da direita, seja protagonizada por Cavaco Silva ou outro cromo dessa área política.

Vamos a ver o que é que os candidatos presidenciais farão, dirão, agirão no dia 29 de Setembro, dia da Jornada Europeia de Protesto contra a Austeridade ...

João Pedro Freire
Aderente do Bloco de Esquerda
Matosinhos
http://militantesocialista.blogspot.com/

NOTA: o que escrevi não é bem uma resposta à peça do Secretariado, até porque não lhe dou muita importância ... esperava mais!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Porque “não há condições”...

Como previsto lá se realizou a Assembleia de Activistas – e 13 (?!) pessoas compareceram. A conversa foi interessante, o almoço estava bom e regressamos a casa convencidos do dever cumprido… Continuamos sem candidato – porque, ao que parece, mesmo a esquerda que berra por uma candidatura de protesto e combate, acha melhor não meter os burrinhos na lama –, porque “não há condições”…

Entretanto, o “candidato das esquerdas” lá se vai rindo alegremente entre os apoios já manifestados pelo putedo político indígena.

Menos-mal, ao menos, os poucos que ali estivemos decidimos criar uma plataforma das esquerdas disponíveis para intervir, polemizar, produzir coisas e… repensar as ditas. Já não é mau – aliás, é muito bom. Pela primeira vez em muitos anos, gente de esquerda de vários matizes pensa ser importante agir a várias vozes.

Continuo a acreditar – mas eu sou um optimista crónico e um ingénuo endémico – que, se todos quiséssemos, até podíamos erguer uma candidatura de combate das esquerdas que não se rendem à prostituição ideológica, ao proxenetismo táctico e à desesperança.

Mas sou um lírico. Sou apenas um gajo que olha para a nossa vida colectiva e pensa que este país teria tudo a ganhar com uma esquerda que substituísse a retórica pela acção, a verborreia grupal pela cidadania activa!

António Alte Pinho
http://esquerda2011.blogspot.com/

________________
Legenda
Como se percebe pelo movimento de mãos, o candidato Alegre acaricia a sua rameira preferida... Ou seja, a concubina de seu bordel histórico.
Ou de como a actividade política está a resvalar perigosamente para estórias de putas.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A esquerda morreu! Viva a esquerda!

À tese da crise objectiva do capitalismo, declarada por ele próprio, no fim do ano de 2008, seguiu-se a prova de que nenhuma ideia de esquerda sobejou do colapso da ex-URSS. Repararam na satisfação com que tanto cretino (à esquerda e à direita) se lembrou de dizer o óbvio: que Karl Marx afinal sempre teria tido razão? O que não disseram foi que o Marx foi um revolucionário a surfar uma revolução. Mas o que fazer quando não há revolução na rua e se quer ser de esquerda?

Distraído como sou, imaginei que a queda do muro de Berlim significasse para o debate de ideias uma libertação. Na altura tudo estava condicionado: ou se era a favor do capitalismo ou a favor do socialismo, como se apenas existissem duas ideias correspondentes a duas realidades (o que era manifestamente estúpido, mas era assim que se pensava, seja o vulgo sejam os cientistas sociais). A liberdade, porém, não é o estado natural das sociedades abandonadas a si próprias. Caso não existam movimentos de libertação não há liberdade. E o que temos visto na era pós-colonial são movimentos de libertação – muito associados a processos de individuação, lá onde haja condições para tal – a que também chamamos (erradamente) movimentos sociais (por vezes sociedade civil, solidariedade, etc.) mas fora de qualquer perspectiva socialmente revolucionária.

Em Portugal, em particular, a perspectiva de emprego já não é uma perspectiva de trabalho. Como se costuma dizer, os portugueses recusam-se a fazer certos trabalhos e, portanto, recusam-se a sacrificar-se pela sociedade, com o risco de perderem um pouco o sentido das realidades, de tal maneira as realidades são encobertas com camadas de informação.

Alguém dizia que caso Portugal queira ou seja obrigado a sair do euro o valor das mercadorias no País seria imediatamente reduzido a um terço (ou mesmo um quarto) do valor actual. O que quer dizer que a nossa estadia no Euro fez crescer especulativamente o valor à nossa disposição por 3 ou 4 vezes, de que alguns espertalhaços aproveitar mais que os outros. Mas afinal a economia, numa grande medida, é política e poder em estado puro. O poder de a zona euro aceitar lidar com os portugueses (e com cada um dos outros países) lá para os fins económicos que entendem ser bons para quem lá mande naquilo. Ora, será a esquerda capaz de dizer aos portugueses como se devem comportar em tais circunstâncias? A mim parece-me que não. Porque os portugueses, apesar da falta de educação, não são parvos, como nenhum povo no mundo. E compreende muito bem ser verdade aquilo que a direita lhes diz: “nós somos do primeiro mundo!” As expectativas de vida que a generalidade dos portugueses imaginou em jovem foram em grande medida ultrapassadas pela realidade.

Nos países europeus mais habituados a viverem no centro do capitalismo, onde as expectativas de vida são decrescentes faz pelo menos vinte anos, a reacção dos povos à situação actual também não é revolucionária. A crise objectiva – isso é mais que evidente – não produziu numa crise subjectiva. Verificado isso mesmo, passados alguns meses após a declaração oficial da crise, a direita volta ao ataque e impõe a continuação e aprofundamento da política anteriormente seguida. Porque haveriam de mudar ou sequer puxar pela cabeça se não têm oposição.

Ser de esquerda, nos dias de hoje é um pouco vergonhoso. Por isso os jovens preferem ser de direita, da mesma maneira que muitos “gostam” do Benfica. Tal partido vem de mais longe, tem mais tradição e está a ganhar os campeonatos. Por isso, também, encontramos na actividade cívica e política barreira geracionais importantes, que implicam a necessidade de um trabalho em profundidade à esquerda, sobretudo na crítica teórica e também na prática de mobilização, para poder vir a ter possibilidades de mudar de rumo algum dia.

O estado a que a esquerda chegou está bem patente nas eleições presidenciais que aí vêm: o antigo candidato dos “movimentos sociais” tornou-se o defensor do desacreditado Sócrates, na esperança de o PS voltar a ser um partido com ambições à esquerda. A esquerda propriamente dita, essa, está fora de jogo. Perdoem-me os comunistas por não os meter nesta equação, mas a minha ambição para a esquerda é a de assumir a governação, caso venha um dia a saber o que fazer em tal posição.

António Pedro Dores

terça-feira, 29 de junho de 2010

O que falta à Esquerda?

Nunca como hoje as Esquerdas extra-parlamentares tiveram condições para apresentar uma candidatura às presidenciais, porque nunca como hoje estas Esquerdas tiveram uma posição comum. Ou seja, independentemente da área ideológica, há o reconhecimento da necessidade de:

1. Levar o protesto social às eleições;
2. Apresentar uma candidatura democrática, socialista e anticapitalista.

Acresce a este facto a circunstância de, nesta área, ainda não ter surgido nenhuma candidatura associada a uma organização (como em outras ocasiões ocorreu), nem seja previsível que tal venha a acontecer tendo em conta o tempo útil necessário para a formalizar.

É por demais evidente que uma candidatura, nascida das premissas enunciadas, teria condições não só de unir as várias Esquerdas extra-parlamentares, como para alargar a sua base social de apoio a eleitores de outras Esquerdas que não se revêem nas candidaturas já anunciadas.

E seria até criminoso que, perante esta situação, estas Esquerdas não aproveitassem a oportunidade de, pela primeira vez globalmente, não terem de votar útil ou de engolir o sapo “menos mau”…

Por outro lado, o surgimento de uma candidatura desta natureza, ao contrário de “dividir a Esquerda”, como alguns gostam de argumentar (como se a Esquerda fosse “chapa 5” de uma entidade única), levaria às eleições o eleitorado que não se reconhece no candidato de Sócrates e da direcção do Bloco de Esquerda, nem no candidato do PCP (seja ele/a quem for).

Falta à Esquerda unir-se em torno de um programa mínimo, rompendo necessariamente com a cultura da candidatura de grupo, e corporizar o programa numa personalidade (mais ou menos conhecida, pouco importa) que concite a concordância de todas as organizações e cidadãos envolvidos no processo de debate que tem decorrido e vai continuar, nomeadamente na Assembleia de 10 de Julho, a ter lugar no Palco Oriental, em Lisboa.

António Alte Pinho

sexta-feira, 25 de junho de 2010

É preciso um candidato de esquerda... há por aí alguém disponível?

Manuel Alegre é o candidato do partido do governo e também da direcção do Bloco de Esquerda. Fernando Nobre, assumido como uma "iniciativa cidadã" que não é de direita nem de esquerda, é a candidatura "marca branca" ...

No dia 22 deste mês, participei numa reunião de activistas de diversas esquerdas que estão preocupados com o estado a que as esquerdas chegaram quanto às próximas presidenciais.

Os activistas das esquerdas - de diversos partidos, de diversas associações, individualmente - manifestaram preocupação por esta espécie de "nível zero" a que as esquerdas chegaram. Um "nível zero" que se resume no seguinte:

os candidatos ditos de esquerda movimentam-se na área do partido do governo e avançam com propostas que pouco ou nada se diferenciam do presumível candidato da direita, o actual Presidente;

de um momento para o outro, as esquerdas sentem dificuldade em identificarem um candidato comprometido com propostas anti-capitalistas, democráticas e socialistas, e, pior ainda, sentem que hipotéticos nomes identificados com uma candidatura das esquerda que o são, aceitem o desafio;

o voto útil numa primeira volta das Presidenciais não faz sentido. Mas a luta contra a direita numas Presidenciais fica sempre refém da existência de uma 2ª volta e, nessa 2ª volta, lá estará novamente o tal voto útil nos candidatos que só são de esquerda, no momento das campanhas eleitorais.

Há um imenso espaço social à esquerda e de cidadãos revoltados com os efeitos desta crise que não se revêm nas actuais candidaturas presidenciais.

Nesse espaço social, cresce alguma angústia pela incapacidade prática e concreta de se apresentar alguém com o prestigio e a notoriedade políticas e sociais suficientes para a reafirmação dos valores, principios e propostas das esquerdas de afirmação democrática, socialista e anti-capitalista.

Os principais partidos das esquerdas com representação parlamentar têm uma responsabilidade notória no estado a que se chegou. Mas as esquerdas extra-parlamentares parece que só se lembraram de influenciar alguma coisa, tarde e a más horas!...

O parlamentarismo dito de esquerda e algum esquerdismo que continua a pulular entre as esquerdas extra-parlamentares, juntaram-se objectivamente criando uma situação política perfeitamente aberrante e de consequências negativas.

É incompreensível que a onda de protesto social e laboral existente em Portugal e por essa Europa, não tenha nenhuma repercussão política no aparecimento de uma candidatura alternativa às do situacionismo governamental e parlamentar.

Na minha opinião, o tempo para a apresentação de uma candidatura das esquerdas, socialistas, democráticas e anti-capitalistas escasseia a um ritmo intenso! Ou seja, não há muito tempo ... mas ainda sobra algum!

Como militante do Bloco de Esquerda que participou na última Convenção Nacional e apelou, com mais 305 bloquistas, a uma Convenção Extraordinária que discutisse democráticamente a decisão a tomar quanto a uma candidatura presidencial, assumo que seria muito importante e mobilizador que fosse possível a apresentação de uma candidatura de afirmação alternativa às que já surgiram e surgirão, formalmente situadas à esquerda.

O Bloco de Esquerda é uma referência política alternativa na esquerda socialista que conseguiu a convergência de correntes com experiências politico-ideológicas muito diferentes à esquerda. Conseguiu também um impacto social e eleitoral notável. Mas, com o passar dos anos e o sucesso eleitoral, parece que uma das principais mensagens fundacionais - correr por fora ... estar com e nos movimentos e as lutas sociais ... - se foi esquecendo! E o cúmulo desse esquecimento é a partilha de uma mesma candidatura presidencial com o partido do Eng. José Sócrates!

Estou convencido que muitos bloquistas, muitos eleitores que votam Bloco de Esquerda, muita gente que via novidade e coragem políticas na postura do BE, não compreendem, não aceitam a escolha do candidato Manuel Alegre pela direcção política bloquista!

Essas pessoas esperavam que o Bloco de Esquerda fosse, mais uma vez, referência de esquerda de confiança, energia alternativa, na escolha de um candidato que agora soubesse incorporar o protesto social que cresce contra as falsas soluções para a crise impostas pelos governos europeus, como o de José Sócrates, às ordens da Europa de Durão Barroso.

Por respeito às expectativas dessas pessoas, por referência aos principios fundacionais do Bloco de Esquerda, por não querer contemporizar com políticas neo-liberais, estou comprometido com a busca activa de uma candidatura das esquerdas democrática, socialista e anti-capitalista que saiba dar voz ao protesto social!

O tempo não ajuda, é um facto!

Mas no movimento e no protesto sociais ficarão a saber que, contra a corrente do conformismo das esquerdas parlamentares, buscou-se, tentou-se!

João Pedro Freire

http://militantesocialista.blogspot.com/
Foto: DR

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A esquerda anticapitalista não se rende!

ASSEMBLEIA DE ACTIVISTAS
POR UMA CANDIDATURA PRESIDENCIAL DE ESQUERDA

10 de Julho, Sábado, Lisboa, Palco Oriental
(Calçada Duque de Lafões, nº78)

A Assembleia inicia os seus trabalhos a partir das 10h00, prolongando-os até às 18h00.

Entre as 13h00 e as 14h30 será efectuado um intervalo para almoço, que ocorrerá num restaurante próximo (o preço por refeição não deverá exceder os €8,00).

A ordem de trabalhos será decidida no início da Assembleia, altura em que se procederá à eleição da mesa.

A Assembleia é aberta a todos os activistas de Esquerda que se revejam na necessidade de um candidatura para levar o protesto social às presidenciais.

Confirmações de presença para o e-mail: mailto:esquerda2011@gmail.com ou para o telemóvel: 915 229 504.

Textos de opinião, sugestões e propostas deverão, de igual modo, ser encaminhadas para o e-mail em referência.

Transportes
Autocarros 28, 39, 718, 793

terça-feira, 22 de junho de 2010

Euro e soberania, comentário a dois comentários*

Saúdo os comentários de Nuno Cardoso da Silva e de João Pedro Freire à Proposta de Linhas Programáticas para uma candidatura de Esquerda às presidenciais, que apresentei.

A discutir é que a gente se entende, e hoje, mais do que nunca, discutir é preciso.

Há uma certa convergência entre os dois comentários não apenas pelas opiniões, mas principalmente pelos temas e, por isso, permito-me responder-lhes em conjunto de uma maneira sintética, dentro do possível. Os pormenores ficarão para mais tarde.

Há aqui duas questões estreitamente ligadas: a do euro e a da soberania. Comecemos pela segunda.

Concordo que o conceito de soberania pode ter más conotações. Por um lado, a soberania dum Estado tende sempre a ser condicionada e, por isso, ela é relativizável porque a independência dum país pode ser mais ou menos dependente de interesses e de poderes terceiros. Pode também acontecer que ela seja apenas a expressão de nacionalismos serôdios e exacerbados. Foi o que aconteceu na Europa entre as duas guerras. Em Portugal, o Estado Novo era um Estado soberano e o seu nacionalismo exacerbado e beato servia apenas para legitimar a ditadura. Era um Estado anti-social e anti-democrático que não tolerava as liberdades individuais.

Na mesma época, outros Estados soberanos assumiam os valores da democracia, eram sociais e as liberdades individuais estavam plenamente consagradas. Constituíam o exemplo paradigmático da relação que legitimamente se pode estabelecer entre soberania, liberdades e democracia.

Poderá esse paradigma ideal aplicar-se ao actual Estado português?

Penso que esse modelo deixou de fazer sentido entre nós. O que está a acontecer ou já aconteceu – as coisas mudam depressa demais lá nos segredos dos bastidores dos mandões da EU – é um golpe de estado, cujas consequências me parecem óbvias: se os órgãos de soberania democraticamente eleitos em Portugal deixaram de ter competência para aprovar o orçamento e votar impostos, isso significa o quê? Significa que a soberania desses órgãos passou a ser de fachada e que Portugal já não é um país soberano.

Será esta conclusão uma ilação nacionalista, estilo Estado Novo? Não, porque o que sobreleva aqui em relação ao conceito de soberania é a perda das liberdades e da democracia políticas.

Se Portugal já não é um país soberano, o que é que isso quer dizer? Quer dizer que a democracia portuguesa passou a ser uma democracia de fachada, já não mandamos em nossa casa.

Síntese: se não gostamos da palavra soberania, então falemos de liberdade e de democracia.

Chegamos, então, ao ponto: soberania democrática/EU/euro/PEC/austeridade são questões indissociáveis, temos que nos pronunciar sobre elas todas e não apenas sobre esta ou aquela.

Falemos da União Europeia. Será exagerado compará-la com a defunta União Soviética?
Ambas foram constituídas de cima para baixo. Haverá algum português que se possa gabar de ter tido a oportunidade de se pronunciar, de ter votado em relação à entrada de Portugal na CEE, de ter votado a entrada no euro, de ter votado o Tratado de Lisboa? O que foi feito das promessas?

Do mesmo modo que não existia uma URSS aceite por todos os povos que nela estavam integrados à força, sob a mão férrea do partido comunista soviético e da sua nomenklatura, também não existe uma União Europeia decidida e construída livremente pelos povos europeus.

Queremos os Estados Unidos Socialistas da Europa de que fala o João Pedro Freire? Generosa ideia. Não rejeitemos as utopias, mas sejamos humildes e realistas. Desconfiemos dos burocratas que odeiam a democracia. Eles construíram a União Soviética. Outros parecidos com eles mandam na UE, ou seja, mandam em nós e ninguém diz nada.

Porquê? Porque o que está agora na moda é dizer que isso do Estado-Nação passou a ideia arqueológica. E dizem-nos isso a nós, o mais antigo Estado-Nação da Europa?

Sair do euro é um disparate, diz o Nuno Cardoso da Silva. E entrar, não foi? Há diferentes opiniões.

O economista francês Elie Cohen, por exemplo, afirma que o euro beneficiou sobretudo as economias mais desenvolvidas do Norte. E a razão compreende-se facilmente: por um lado, o euro ajudou a fixar a “especialização” dos países do Sul em sectores de baixas qualificações e de baixas rentabilidades; pelo contrário, com o euro, os países do Norte aproveitaram para “ocupar” os sectores mais performantes e tecnologicamente mais evoluídos. Quando rebentou a bolha do imobiliário e da construção civil, o que é que aconteceu à Espanha e a Portugal? A Espanha, que era o tigre ibérico, está à beira do abismo. Portugal? Portugal depende da Espanha.

Ganhámos assim tanto com o euro?

A questão do euro não é apenas económica e, mesmo que o fosse, o económico é, em primeiro lugar político, e também, ou talvez por isso, ideológico. O Neo-liberalismo, responsável por tantos crimes e miséria, não é uma ideologia? É tanto ou mais ideologia do que a economia “socialista soviética” centralizada. É a economia uma ciência absolutamente exacta? Não, não é.

É verdade que, entre as causas da falta de produtividade da economia portuguesa, estão a “falta de qualificação dos empresários, a falta de qualificação de muitos quadros médios e superiores e a falta de investimento por parte das empresas, que preferem distribuir dividendos” - estou a citar o Nuno Cardoso da Silva. Mas quem é que tem protegido e promovido essa gente? E a corrupção não tem nada a ver com isso?

Então, o que é que fazemos?

Espero que sejamos cada vez mais críticos, que mantenhamos o nosso espírito alerta, que confiemos na razão e no raciocínio, e que sejamos prudentes e realistas.

Falei de sair da EU e/ou do euro, é verdade, mas trata-se apenas de uma hipótese de trabalho, hipótese que se me afigura necessária face ao imbróglio para que fomos arrastados pelos responsáveis conhecidos de toda a gente. Trata-se de um cenário que é preciso equacionar e discutir, aprofundar.

É óbvio que se tal hipótese se viesse, se vier a concretizar-se, se trataria, se tratará de uma mudança cheia de consequências. Mas significa isso que devemos ficar caladinhos, à espera que os senhores de Bruxelas e os seus patrões tomem decisões por nós? Será que não nos compete, enquanto militantes de Esquerda sem complexos, atentos às realidades e virados para o futuro, colocar em cima da mesa todos os cenários?

Porque o que está em causa aqui em tudo o que tem a ver com a mais que problemática relação que Portugal tem com a União Europeia, é decidirmos se vamos ter coragem e lucidez, se seremos capazes de apostar em nos governarmos a nós próprios ou se, pelo contrário, vamos continuar a fazer gala em querermos ser bons discípulos e obedientes às ordens desses tipos que nos governam a partir de Bruxelas. E que, por que não foram eleitos por ninguém, não passam duns ditadorzecos.

Vamos tratar da nossa vida?

Vamos, por exemplo, encontrar novos parceiros internacionais? O que é que nos impede? A fidelidade a uma Europa que sempre nos olhou por cima do ombro? Há outros parceiros à nossa espera, temos é que os procurar.

Magrebe, África Subsaariana, América Latina. Foi por aí que nós andámos desde há muitos anos, quando éramos já uma espécie de párias, plantados aqui no extremo ocidental esquecido da Europa. Um extremo europeu periférico, sem rotas de comércio, estávamos condenados, como hoje. Mas descobrimos novos mundos, se calhar é essa a nossa sina.

E mandemos o Sócrates e o Cavaco para o espaço a bordo duma Soyuz. Declaro-me desde já contribuinte voluntário numa subscrição com esse propósito. Boa viagem.

Mário Leston Bandeira

*A resposta de MLB refere-se a estes comentários:
https://www.blogger.com/comment.g?blogID=6252602&postID=5641062074011470878

Publicado em ESQUERDA 2011 http://esquerda2011.blogspot.com/

Foto: DR

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Há uma esquerda que não se rende

O drama endémico das Esquerdas, em Portugal, é submeterem reiteradamente as suas linhas estratégicas à visão táctica rasteira e imediatista, que se consubstancia na lógica oportunista do “mal menor”. E isso é por demais evidente no que respeita às próximas eleições presidenciais.

A direcção do Bloco de Esquerda, acantonada numa suposta orientação aprovada na última Convenção Nacional, decidiu de forma leviana e antidemocrática (sem consultar os militantes) apoiar a candidatura de Manuel Alegre sob o pretexto capcioso de “juntar forças para um esquerda grande contra as políticas liberais”. Tal propósito teria “funcionado” se Sócrates e a direcção direitista do PS não tivessem apoiado o candidato. E, convenhamos, Louçã e os seus pares tudo fizeram para “puxar” Alegre para a “esquerda”, como nos recordam as sessões do Teatro da Trindade e da Aula Magna…

O problema é que, na hora decisiva [como no essencial tem revelado], Alegre não só não debitou uma única frase contra o PEC como, ainda para mais, abençoou o entendimento PS/PSD, gorando as intenções bloquistas da “esquerda grande contra as políticas liberais”, colocando-se na posição de candidato do governo, e ao lado de Cavaco na exaltação das “virtualidades” do centrão político.

Ora, isto, para além de colocar a direcção do Bloco numa posição desconfortável [que, seguramente, terá reflexos na sua base de apoio], amputou a possibilidade de unir em candidatura única toda a Esquerda e o movimento social que se tem batido contra as políticas do governo.

Louçã e os dirigentes do BE, ao contrário de se empenharem na procura de uma candidatura que unisse a “esquerda grande”, optaram por partilhar o palanque eleitoral com Sócrates e o PS, isolando-se do movimento social e cavando uma fissura, previsivelmente irreversível, na sua base social mais combativa.

É um problema deles que, sob um certo ponto de vista, até poderá ser positivo, para o deve e haver da história das Esquerdas em Portugal – e clarificador no separar de águas necessário para a construção de uma Esquerda de combate que rompa com as tácticas oportunistas do “mal menor” e construa alternativas!

Chegados aqui, o que se impunha à Esquerda que ficou de fora das eleições? Naturalmente impunha-se dar voz ao movimento social que se tem batido contra o governo de direita e os PEC’s de miséria, buscando entendimentos e unindo esforços para a construção de uma candidatura “contra as políticas liberais”.

É nesse ponto que estamos. A “Proposta de Linhas Programáticas” apresentada por Mário Leston Bandeira – um fundador do Bloco de Esquerda de primeira hora –, vem dar expressão a um movimento informal que se tem revelado através de várias reuniões pelo país, juntado militantes e activistas do BE e de outras Esquerdas num objectivo comum: levar o protesto social às Presidenciais 2011!

Uma tal candidatura, ao contrário de “dividir a esquerda” – como a direcção bloquista gosta de enfatizar –, vai levar às urnas amplos sectores sociais que não se identificam com os candidatos em presença. Ou seja, uma candidatura da Esquerda que não se rende vai mobilizar participação cidadã e denunciar os propósitos antipopulares do triângulo S. Bento/S. Caetano/Belém!

António Alte Pinho

http://esquerda2011.blogspot.com/

Foto: DR

sábado, 19 de junho de 2010

Candidatura de Esquerda às Presidenciais

PROPOSTA DE
LINHAS PROGRAMÁTICAS

Quem se der ao trabalho de ler atentamente a Constituição da República facilmente consegue refutar as interpretações minimalistas quanto aos poderes presidenciais e demonstrar que, ao contrário do que é dito nos meios políticos e pela comunicação social, o Presidente da República dispõe de poderes suficientes para intervir activamente nas grandes opções políticas em áreas essenciais na economia, nos direitos sociais, na preservação dos recursos naturais, na soberania, defesa e relações internacionais.

A direita política que defende os interesses das grandes empresas e do grande patronato odeia e despreza a Constituição da República.

É que a nossa lei fundamental, mãe de todas as leis, apesar das sucessivas revisões aprovadas pelo bloco PS/PSD, resistiu e continua a impor, no essencial, o projecto político que nasceu da revolução social do 25 de Abril. Projecto este que se inspirou em ideias e ideais defendidos pelas diferentes sensibilidades de esquerda que convergiram, sob a pressão dos movimentos sociais, na redacção do documento aprovado pela Assembleia Constituinte em 1976.

A nossa Constituição é uma lei que continua a impor que o país seja governado à esquerda e esse facto explica o ardor militante dos sectores neo-liberais de direita contra esta lei fundamental. Essa imposição explica também por que é que muito do que lá está escrito foi sistematicamente ignorado durante os longos anos de governo neo-liberal PS/PSD.
(...)

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http://esquerda2011.blogspot.com/2010/06/candidatura-de-esquerda-as.html

Foto: DR

A esquerda que não se rende constrói uma candidatura de combate!

domingo, 6 de junho de 2010

Presidenciais: leiam a Constituição*

Leiam a Constituição, está lá tudo o que é importante para governar o país à esquerda.

É que, apesar de todas as revisões, a nossa lei fundamental continua a ser uma lei que impõe que se governe o país à esquerda. Não admira, por isso, que os sectores mais militantes da direita continuem a sonhar acabar com ela. Não admira que quase tudo o que lá está escrito tenha sido sistematicamente ignorado durante os longos anos de governo PS/PSD.

Passemos em revista apenas alguns artigos.

Todos têm direito ao trabalho. Para assegurar o direito ao trabalho, incumbe ao Estado promover a execução de políticas de pleno emprego (artigo 58º). Em que ponto estamos: mais de 700.000 desempregados.

A organização económico-social assenta nos seguintes princípios: subordinação do poder económico ao poder político democrático; coexistência do sector público, do sector privado e do sector cooperativo e social dos meios de produção; liberdade de iniciativa e de organização no âmbito de uma economia mista; protecção do sector cooperativo e social de propriedade dos meios de produção (artigo 80º).

Economia mista, a que se conhece é a da promiscuidade entre políticos e negócios privados, por outras palavras, submissão do poder político e do Estado ao poder económico do capital privado.

Quanto ao sector da economia social, o terceiro sector, há muito que ele passou a ser considerado uma utopia provavelmente esquerdista de auto-gestionários que não sabem o que fazer à vida.

Incumbe prioritariamente ao Estado no âmbito económico e social promover a coesão económica e social de todo o território nacional, orientando o desenvolvimento de todos os sectores e regiões e eliminando progressivamente as diferenças económicas e sociais entre a cidade e o campo e entre o litoral e o interior (artigo 81º).

Políticas de coesão territorial? Fecho de maternidades, de centros de saúde, de escolas, de estações de correio, de serviços públicos. Resultados palpáveis: mais desertificação, mais envelhecimento demográfico, mais concentração urbana, mais poluição, mais desperdício de recursos, quais os limites territoriais da soberania do Estado?

A tributação do consumo visa adequar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo (artigo 104º), como, por exemplo, o IVA dos ginásios, é isso.

Ninguém pode ser obrigado a pagar impostos que não hajam sido criados nos termos da Constituição, que tenham natureza retroactiva ou cuja liquidação e cobrança se não façam nos termos da lei (artigo 103º). O Teixeira dos Santos é especialista neste artigo.

Vale a pena continuar?

Para protecção da família incumbe ao Estado, designadamente: promover a criação e garantir o acesso a uma rede nacional de creches e outros equipamentos sociais de apoio à família, bem como uma política de terceira idade (artigo 67º). Estamos conversados.

Na realização da política de ensino incumbe ao Estado estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino (artigo 74º). Ou seja, o Estado tem-se incumbido em aumentar, progressivamente valha-nos isso, as propinas do ensino superior público.

O nosso regime é semi-presidencialista, dizem os entendidos. Há também quem diga que é idêntico ao sistema francês, o que é quase verdade. Diferença: enquanto em França, é o Presidente da República que, por direito próprio, preside ao Conselho de Ministro, em Portugal, isso só poderá acontecer quando o Primeiro-Ministro o solicitar (artigo 133º). Não me lembro que isso tenha acontecido e, se aconteceu, terá sido apenas puro folclore.

O facto de o Presidente da República não presidir por direito próprio ao Conselho de Ministros não é um pequeno pormenor, mas em política nada é definitivo. No caso em apreço, basta retirar do artigo 133º as palavras “quando o Primeiro Ministro lho solicitar” e os poderes presidenciais tornar-se-ão mais claros para toda a gente.

Mas, bem vistas as coisas, lida com toda a atenção a Constituição da República, a ampla latitude da intervenção presidencial na vida política não deixe muita margem para dúvidas: ele é o Comandante Supremo das Forças Armadas (artigo 134º) e nomeia e exonera o Primeiro-Ministro (artigo 130º).

Mas mais importante ainda, o Presidente da República quando toma posse é obrigado a prestar a seguinte declaração de compromisso: “Juro pela minha honra desempenhar fielmente as funções em que fui empossado e defender, cumprir e fazer cumprir a constituição da República Portuguesa” (artigo 127º).

Fazer cumprir o quê?

Fazer cumprir a plena soberania do Estado e as suas obrigações estratégicas, das quais aqui foram dados alguns exemplos: garantir a igualdade de todos perante a lei, garantir o direito ao trabalho e ao pleno emprego, submeter os poderes económicos ao império da lei e do interesse geral, apoiar a economia social, promover a equidade territorial, apoiar as famílias e os casais que desejam ter filhos, assegurar a gratuitidade universal do ensino em todos os graus. E muitas outras coisas.

A tremenda responsabilidade deste compromisso solene coloca o Presidente da República na primeira linha dos deveres de soberania do Estado.

À frente e não atrás do Primeiro-Ministro.

À frente, não apenas porque jurou o compromisso, mas principalmente porque, ao contrário do Primeiro-Ministro, ele foi eleito por sufrágio universal.

*Opinião de Mário Leston Bandeira, publicada em A BELA MOLEIRA http://a-bela-moleira.blogspot.com/

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Alegre, candidato de esquerda?*

Merece Portugal os políticos que tem, as suas mentiras e as comédias que encenam? Será que os portugueses merecem os castigos que os políticos decidiram infligir-lhes?

É uma verdade indiscutível, uma grande parte dos nossos concidadãos são coniventes na situação a que se chegou e provavelmente estarão prontos para reincidir nas suas escolhas. É a lei das maiorias democráticas.

Tivemos eleições há poucos meses, os eleitores elegeram o Sócrates para um novo mandato. Fizeram-no certamente porque estavam contentes, haverá muitos que andarão agora a queixar-se, mas de quem é a culpa?

É verdade que sempre poderão argumentar que não tinham escolha, que o resultado era inevitável. E talvez tenham razão. É que chegámos ao grau zero da política em Portugal: corrupção, políticos incompetentes e mentirosos, compadrios, promiscuidades de toda a espécie. Um inferno cheio de conformismos.

Continuamos com a mesma nomenklatura socialista no poder, a prestimosa nomenklatura que serve devotamente o seu querido líder, continuam os mesmos quase todos em funções, usufruindo das mesmas alcavalas e privilégios.

Mesmo sem maioria absoluta, aparentemente nada mudou. Na realidade, tudo se agravou, nestas coisas não há milagres, os erros pagam-se caro e, assim, estamos pior do que no tempo da maioria absoluta.

Continuamos com a mesma corte de políticos engravatados, ciosos dos seus privilégios e dos seus benefícios, convencidos de que são imprescindíveis e, por isso, investidos na suprema missão de “governar”, cheios da sua importância.

O que é que se agravou? É que agora estamos mesmo à beira de uma tremenda bancarrota social e sem perspectivas de dela sair.

Apesar de ter arrastado o país para a situação que conhecemos, apesar de todas as falcatruas e mentiras a que recorreu para ganhar as eleições, o Partido Socialista continua, pois, no poder. É que apoios não lhe faltam, mais à direita, mais à esquerda tanto faz. Apoios à direita é natural, a lógica das afinidades electivas, dos interesses tem sempre muito peso.

PS/PSD são partidos gémeos, ambos testemunham a mesma fraude, a de utilizarem uma designação que historicamente os situaria à esquerda. Só que na prática não passam de fiéis serventuários do torniquete neo-liberal inventado nos tempos do Nixon para melhor espremer quem trabalha e lhes retirar direitos.

Há muito que estes partidos perderam a vergonha na cara, vão alternando, ora um ora outro. E, assim, nada de novo aparece na frente ocidental deste jardim à beira mar plantado.

Apoios à esquerda, também não têm faltado. Último exemplo, o apoio do PCP e do BE às grandes obras – o velho mito da esquerda soviética – do TGV Madrid/Poceirão. Sem negociações, sem contrapartidas, sem garantias, esses partidos foram lestos no seu apoio. Também estão com o Sócrates, por mais que barafustem como é que poderão dizer o contrário?

Haverá ainda uma esquerda e uma direita em Portugal? Os banqueiros, os donos do capital dizem que não, que não há diferenças, sobre estas questões metafísicas não têm estados de alma e provavelmente terão razão. É que com os seus amigos políticos, todos partilham o mesmo barco dos interesses. Existe entre eles um fio inquebrável tecido por uma bela solidariedade de interesses.

Uma solidariedade que não parece ter fim à vista. Basta pensar no cenário que se pré-figura para as eleições presidenciais.

O que é que vai mudar com estas eleições? Será que vão mudar a pobreza, as desigualdades, os baixos salários, os sacrifícios de quem trabalha, de quem sofre em horas e horas de transportes, horas e horas de trabalho, horas para levar o filho ao infantário, quando se conseguiu arranjar um, ou à escola? Será que vão mudar as humilhações e o stress no emprego? Será que vão mudar as horas à procura de emprego, a suprema marginalização de não ter um lugar para trabalhar, um salário?

O Presidente-candidato da República não parece muito preocupado com tudo isso, aparentemente tudo lhe corre bem e, assim sendo, vai deixando andar.

Há muito que já devia ter demitido o governo Sócrates, tem poderes para isso. Um governo incompetente e mentiroso que nos desgoverna, um governo fantoche telecomandado por Berlim e por Bruxelas, incapaz de definir um rumo e uma estratégia para tirar a economia da recessão e estimular a criação de riqueza e combater a pobreza e as desigualdades sociais. Um governo que nos leva a cada dia que passa para mais perto do precipício.

O que é que isso interessa ao Presidente-candidato?

Cavaco arranja desculpas esfarrapadas para justificar a sua inércia e incapacidade, argumenta com a crise, não quer alienar o seu eleitorado mais conservador. Ora, é em tempos difíceis, em tempo de crise que se revela o verdadeiro estofo dos grandes políticos. Cavaco um grande político? Deixem-me rir.

O seu pensamento está todo concentrado no que vai acontecer em Janeiro do próximo ano, aparece na televisão, faz uns apelos aos empresários, invistam, criem riqueza. É o seu palco, o seu papel, não se está a sair muito mal.

Está sobretudo preocupado em assegurar mais cinco anos comodamente instalado no remanso do palácio de Belém, nas mordomias, nas vaidades do seu cargo. E nada preocupado pelo facto de continuar a ser uma nulidade, cujo nome será vagamente recordado em nota de rodapé dos futuros manuais de história.

Manuel Alegre? Que acrescentar ao que ficou dito atrás?

Candidato de esquerda, mas qual esquerda?

Alguém conhece o pensamento político deste candidato, alguém detém a informação privilegiada quanto à maneira como tenciona, se por acaso for eleito, intervir na vida política do país? Pelo que consegui perceber, não tenciona intervir activamente, o que significaria descer ao grau mínimo do presidente corta-fitas.

Que pensa Manuel Alegre quanto à redefinição do papel do Estado e do Presidente da República, quanto à Justiça, quanto a um modelo de desenvolvimento económico que assegure justiça social e condições de vida dignas para todos e preserve os recursos naturais?

O que pensa quanto à justiça fiscal e a uma regulação que submeta o capital, os capitalistas e os banqueiros às exigências da ética e da solidariedade sociais, da democracia e da igualdade perante a lei?

Qual o seu pensamento sobre o lugar e os interesses de Portugal na Comunidade Europeia? Haverá, para além desta, outras opções estratégicas, outros parceiros internacionais porventura mais vantajosos para Portugal, diga-nos, esclareça-nos sr. candidato de esquerda?

Candidato de esquerda, mas qual esquerda? Esquerda, direita, esquerda, direita, faz que anda mas não anda como dizem os brasileiros.

Uma esquerda a marcar passo é aquela que temos e que provavelmente continuaremos a ter, uma esquerda impotente e incapaz de tirar o país do pântano em que ele se atolou ao cabo de três décadas de neo-liberalismo arrogante e impiedoso.

Tem a palavra o povo. On verra bien.

*Opinião de Mário Leston Bandeira, publicada em A BELA MOLEIRA http://a-bela-moleira.blogspot.com/

Foto: DR

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Levar o protesto popular às presidenciais

A entrevista de Manuel Alegre à RTP veio relevar uma evidência: a esquerda ainda não tem candidato às eleições presidenciais de 2011.

A única referência breve de Alegre ao PEC e às medidas antipopulares do governo, foi para louvar o entendimento PS/PSD, acrescentando ser desejável que esse entendimento se alargue ao PCP e ao BE…

O “candidato das esquerdas”, como a direcção do Bloco a ele gosta de se referir, mostrou claramente o seu real propósito: ser eleito a qualquer preço e… depois logo se verá.

Convenhamos que não é disso que a Esquerda precisa. Não é de um presidente complacente com os pacotes de miséria que o país necessita para superar a crise e colocar Portugal na senda do progresso e do desenvolvimento.

Alegre, ainda assim, num remoque de “esquerda”, procurou chutar o ónus das medidas impopulares para Bruxelas, livrando Sócrates, o governo e o PSD de responsabilidades, piscando olho à direita e dando o sinal de uma “esquerda responsável”.

Ou seja, depois de ter metido o Bloco no “bolso”, o candidato do governo alargou o seu espaço de manobra e revela-se aquilo que efectivamente sempre foi: o salva-vidas das políticas de direita do PS, com as quais sempre foi mais ou menos tolerante.

Alegre está para a direcção do PS como o próprio PS sempre esteve para os interesses do grande capital financeiro: é o recurso necessário!

Neste cenário, faz todo o sentido unir esforços para a construção de uma plataforma de Esquerda, com capacidade de aglutinar o protesto social e dar resposta política aos planos do governo e da União Europeia subordinados ao grande capital financeiro.

A Esquerda que não se rende nem se enreda em jogos de conveniência táctica precisa de encontrar um programa e um nome que corporizem o protesto popular, utilizando as eleições presidenciais como tribuna de denúncia da coligação de direita PS/PSD – agora, abençoada por Manuel Alegre.

Foto: CS